domingo, 22 de abril de 2012

A morte dos poetas


Sete da manhã. Acorda. Vai para a parada. Ônibus. Olha o relógio. Atraso. Corre. Sinal vermelho. Escritório. Papelada. Cafezinho.  Mais papelada. Meio dia. Almoço. Duas da tarde.  Mais papelada! Cafezinho! Papelada! Sinal vermelho! Corre! Atraso! Olha o relógio! Ônibus! Vai para a parada! Vou poder acordar agora?

sexta-feira, 2 de março de 2012

A crueldade de nos sentirmos mais vivos depois de conhecer a morte.

Ela chegou correndo. Foi até a recepção, perguntou pela Almerinda, quarto 1005. Subiu o elevador angustiada, os olhos inchados pelas lágrimas anteriores. Terceiro andar, o elevador faz uma pausa para um senhor entrar. Ela irrita-se com o atraso, mesmo sabendo que não podia evitar o que já havia acontecido. Décimo andar. A porta do elevado abre e a euforia vai embora, mas parece ter derramado um copo de medo com gotas de pânico antes de sair. Os passos seguintes tonam-se incertos, o corpo vacila enquanto o coração congela. Os rostos que o olhar alcança tornam-se familiares. "Meus pêsames" misturam-se com soluços dos mais íntimos. Ela anda mecanicamente até o quarto.

Abri a porta e entrei enquanto ela fechava-se atrás de mim. Lá estava. Minha bisavó. Mentira. Era só um cadáver. Inchado, deformado. Errado de novo. Ainda era minha bisavó. E nenhuma das ideias anteriores se contradizia. Era um corpo estendido em uma cama e este era o mesmo que me fazia feliz apenas com um abraço. Era um cadáver e minha bisavó. Era um só. Era o cadáver da minha bisavó.

Ela olhou para um lado e para outro. Não havia ninguém. Finalmente seu corpo deixou-se relaxar... O texto pode ficar menos corrido, agora afinal, ela só sentou no chão e deixou o resto das lágrimas escorrerem e secarem no seu rosto.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sem título

É simples assim
Sem título
Sem assunto
Uma epifania de madrugada
Mal feita
Mal acabada.

É uma ideia pela metade
Um abraço frouxo
Uma poesia abortada
Uma reestréia com gosto.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dourado

Afirmo que não se deve entender
Se entedesse tudo
Em tudo não veria graça
Nem mistério.

Ainda penso nos amores perdidos
Nos herdados
Nos não vistos
E nos encontrados.
Sorrio.

O tempo já deveria estar morto
Para que pudéssemos ser eternos.
O meu tempo é único
Repleto de incoerências.
Meus minutos são sorrisos.
E tento,
mas só tento,
fazer das lágrimas apenas segundos.

Tentava definir uma amizade
Mas para isso
Deveria prendê-la
Ela é um passáro selvagem.
Não se entende
Não se conhece.
Apenas sente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tributo aos beijos, abraços e às noites estreladas.

Quando o tempo passar e você deixar de me amar lembre-se dos nossos momentos felizes. Afogue as brigas, mágoas, angústias e choros no travesseiro das nossas noites. Faça um moisaico com os poucos objetos que te fazem lembrar de mim e pendure na sua sala. Transcreva todos os prazeres em poesias.
Quando o tempo passar e você deixar de me amar não comente sobre mim para os amores que ainda terá. Exceto para aquela que te fará feliz durante todo o resto de sua vida, pois ela terá compartilhado comigo a experiência de noites sem dormir pensando em você. Mas não lhe morda e nem faça cócegas, para que tenha "só os meus" gritos e escândalos para lembrar.
Quando o tempo passar e você deixar de me amar lembre-se do meu sorriso e esqueça todas às vezes que chorei na sua frente. Desconstrua todos os mitos e verdades que guarda sobre mim e desenhe-me em seu coração como um quadro colorido, alegre e bobão. Arrancaste-me poucas lágrimas e muitos risos, por isso só estes te entrego.
Quando o tempo passar e você deixar de me amar, somente uma vez, corteje a loucura que eu cortejei. Ame, apegue-se, entregue-se, caia em prantos, dê gargalhadas, morra de saudade, de razão ao irracional, seja o presente de alguém, "passe mal", conforme eu faço com e por você. Continue a achar errado, mas experimente.
Quando o tempo passar e você deixar de me amar sorria sempre que ver o nascer do sol. Conte as estrelas e entenda o nexo do mundo da lua uma vez ao mês. Eu estarei fazendo o mesmo. Vá até o outro lado do seu mundo vez ou outra para me desejar um bom dia.
E se o tempo já tiver passado e você já tiver se esquecido de mim, apenas aplique a lição acima.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Equilíbrio da Instabilidade

Maria já comeu hoje a comida de ontem. João apostou que o seu time ganharia, como fizera nas cinco últimas apostas que perdera. Pedro cansou da vida promíscua dos bares e procurou a igreja atrás de uma mulher menos rodada. Ana vendeu seu carro para pagar umas dívidas e agora anda com o novo modelo. Carol diz que não gosta de vodka por isto aos sábados bebe só pela manhã. Eduardo luta pelo comunismo e sabe de cor o Manifesto, mas hoje não foi a reunião do partido porque tênis da Nike que pediu de natal ficou apertado e ele precisava trocar. Jéssica diz que o ser humano é incoerente e não sabe dar amor, por isto passa mais tempo no zoológico onde trabalha do que com os filhos. Joana mora na quarta ponte da cidade junto aos sete irmãos e diz que é feliz com eles. Guilherme nunca foi à escola, desde pequenino trabalhava em lavouras. Nas épocas de colheita sempre abria muitas vagas e ele gostava das prostitutas que os patrões mandavam para lá. Ninguém conhece "as caras dos caras" da indústria de cigarro. Dizem que devemos ter idéias inovadoras, só o carro a gás que é patenteado e engavetado. Renato, servidor público, é contra o governo populista de Lula e votará na Dilma porque assim o seu aumento chegará mais rápido. Larissa brigou com o pai porque ela quer cursar matemática na faculdade e ele a quer fazendo medicina, para que ela tenha um futuro mais promissor que o dele, professor de português louco para trabalhar em escola pública, onde ganhará e folgará mais na semana. Tão errado e belo, certo e feio, este seu jeito de pensar. E como é linda a magnífica técnica que você tem, esta sua arte de viver a normalidade insana...

domingo, 22 de agosto de 2010

Achados e Perdidos

Eu olhei o meu dia
E não te vi.
Procurei no sofá,
nas estantes, esquinas.
Achei moedas, as chaves,
amigos e putas.
Então busquei-te em mim
E me desesperei....

Achei a necessidade de Ti
A saudade incontrolável
O desejo não afável
A intríseca
E seca
Dor de não te ver.

Eu olhei meu dia...
E não te vi.
Procurei no presente e passado
Nas fotos velhas, álbuns rasgados
No baú de paletós amarelados
Procurei no incompleto
No interminado e sem prazo
Futuro meigo e incerto

Achei o medo
A lágrima, o riso
O par da meia
A tampa da caneta
A coragem não revelada
A falta de padrão
Deste mundo doente
Tão igual, solitário...

Somos achados e perdidos
Dançando calados
Somos abraços esperando
Para serem abraçados
Somos as palavras no silêncio
Que brincam nestes ditados
Não ditos...

Eu olhei o meu dia
E vi que te amo.

Dedicado ao Oleiro.